sexta-feira, 23 de julho de 2010

Tanto cansaço de estar aqui

Tanta coisa má pode nascer do cansaço de estar farto de se estar onde se está.

Tédio, vontade de desistir, raiva, ódio, violência, apatia. Porque é que o suicídio existe.

Como fizemos isto connosco?

Férias

Parto no fim do dia de hoje para uma semana de maravilhosas férias. Ok, não poderei sair de casa, vou desdobrar-me em consultas e em assistência à família, mas não estar aqui é maravilhoso, como se este local fosse o próprio Inferno – e será, um dos diversos infernos que, humanos, somos peritos em construir.

O que me deixa de rastos é esta impotência. Este não ser capaz de encontrar uma solução. Não conseguir sair daqui porque neste país já sou velha. E depois, não tenho o mínimo jeito para empreendedora – capitalista ou sei lá como chamar a isso. Já tentei. Não para ser rica, só mesmo para comer e dar de comer ao meu filho, dormir, e passear de borla na praia. Mas não consigo, não sou capaz. O dinheiro foge-me a sete pés.

Parto no fim do dia de hoje para nove dias seguidos de maravilhosas férias e estas partidas têm sido as melhores coisas deste meu trabalho nestes últimos meses. Eu que sempre me entreguei cem por cento. Eu que sempre tive o hábito e o gosto de trabalhar das nove às nove. Eu que sempre primei por fazer bem, cumprir prazos, dar a melhor imagem das empresas que tenho representado.

(Hummm será que Deus me está a castigar por defender quem usa e abusa dos outros?)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Não percebo nada do que se passa aqui

Vir para aqui é tão difícil que de manhã custo a sair da cama. Já experimentei deixar o despertador longe, mas o resultado é igual. Toca, paro-o, toca paro-o, e assim se repete durante os 25 minutos que, a espaços de cinco, está programado para despertar. Depois, passo durante mais alguns pelo sono e perto da hora a que deveria sair de casa lá me consigo levantar.

É assim que poupo meia-hora todos os dias ao tempo para estar aqui. Hoje consegui ainda entreter-me em conversas de colegas, todas de como é horrível este sítio – que não sou a única a sofrer desse mal, aliás, acho que não há ninguém que não o sofra – e só uma hora depois do que é devido me sentei em frente a este computador. Felizmente um colega tinha-me enviado um email a pedir uns trabalhos que me entretiveram uma meia-hora. Não é todos os dias que tenho estas prendas.

Não entendo – ninguém entende – como é que me têm aqui sem nada – ou quase – para fazer. A desculpa de que a empresa se está a afundar e que não tem dinheiro para as indemnizações não me convence. Estou nesta situação há oito meses e o dinheiro de oito meses era suficiente para me terem mandado embora. Além de que dinheiro é o que não falta ao grupo. Esta empresa tem prejuízos mas o grupo não.

Depois, esta empresa tinha muito dinheiro, estava em crescimento em contraciclo com o mercado; as suas contas entortaram-se até começarem a dar prejuízo após terem mudado o director geral, que se encarregou de despedir, ou de fazer com que se despedissem, os principais responsáveis pelo sucesso que aqui se vivia.

Ninguém entendeu. Pensou-se que a nova administração da holding quereria ter alguém da sua confiança a liderar os destinos desta unidade de negócio. Mas assim que se viu a falta de talento de gestão empresarial e de gestão de recursos humanos e consequentes maus resultados da empresa ficámos à espera que fosse despedido. Mas não, não foi nos primeiros meses, não foi no primeiro ano e aqui continua já há três ou quatro, agora com resultados insultuosamente negativos, quando o resto do grupo tem resultados positivos.

Pois numa empresa assim, mantêm-me a mim, que sou válida e gosto de trabalhar e me empenho totalmente, sem nada para fazer, mantêm primos sem nada para fazer e a ganhar mais que quem trabalha, têm gente incapaz em lugares chave e noutros sem ser chave.

Será por não ter formação em economia nem em gestão que não consigo entender o que poderá estar subjacente a esta política? Já pensei em lavagem de dinheiro (que não percebo como se processa), será?

Mas no fundo quero lá saber o que se está a passar, já só queria que me tirassem daqui (ou que voltassem a fazer disto uma empresa. O que se passa aqui não é diferente do que se passa no Estado, com as cunhas – e inerente corrupção – a levarem o país à falência).

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Tédio

Tédio.

Nesta empresa vivo em tédio.

Tenho para fazer facturas ao contrário. Ninguém me dá mais nada. Ninguém me propõe mais nada. Ninguém quer saber se eu faço ou se não faço mais nada.

É difícil ter disposição para fazer facturas ao contrário.

E é difícil ter disposição para fazer outras coisas. Corroo-me em tédio.

Leio no computador, mas ler no computador ao fim de algumas horas faz doer os olhos. Escrever não me apetece que não consigo ter inspiração. Não consigo escrever cartas de amor ou de desamor, de desejos de amor ou de desejos de desamor, de anúncios em busca de quem me queira dar os abraços que o corpo inteiro pede.

Vontade imensa e inexorável de não estar aqui.

Corroo-me em tédio.

Como é estar bem onde se está? Como é estar bem com o que te tem? Como poderei estar bem tendo que estar aqui, com apenas facturas ao contrário para fazer das dez às seis?

Depressão. Como evitar a depressão que insiste em me puxar para o fundo, pelo corpo todo, entranhas incluídas, forças incluídas, desejo incluído?

Tédio.

Se morrer hoje, morro de tédio.